segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Entre a vida e o viver: "Bambi" de Felix Salten

Bambi nasceu no coração de uma floresta misteriosa, assistido por uma gralha-azul meio tagarela. A partir desse momento, o mundo selvagem ganhou uma vida para desbravar seus sentidos, enquanto o mundo literário ganhou uma personagem histórica nos registros da literatura infanto-juvenil.

(Foto: Jéssika Laranjeira)


O título original, "Bambi - Eine Lebensgeschichet aus dem Walde", foi traduzido aqui no Brasil como Bambi - Uma vida na Floresta, ou simplesmente Bambi. Escrito pelo austríaco Siegmund Salzmann sob o pseudônimo Felix Salten.

Felix Salten em Viena, 1910. (Foto: Ferdinand Schmutzer)


Essa obra singela, cheia de grandes significados diante de um sentido para a vida, foi publicada em 1923 e ganhou repercussão mundial com a adaptação audiovisual dos Estúdio Walt Disney em 1942. Assista ao trailer do filme:


Nesta resenha não pretendo necessariamente comparar filme e livro, até porque isso não é uma coisa tão legal de fazer só por fazer, já que livro é uma coisa e filme é outra, não são e nem devem ser cópias fiéis, sem contar que é impossível, são campos da arte bem diferentes. Entretanto, vou traçar alguns pequenos pontos para você que conhece o filme, ou não mas já ouvi falar, conseguir seguir com tranquilidade e quem sabe se empolgar para ler logo esse livro lindinho.

(Foto: Jéssika Laranjeira)


Bambi é um cervo que nasceu daquele jeitinho que descrevi lá no início, ou seja, bem diferente do filme. Em vídeo Bambi nasce e já é paparicado por todos os passarinhos e coelhinhos e bichinhos fofinhos que cantarolam a chegada do príncipe na floresta. Isso foi a Disney que fez. No livro, Bambi nasce como qualquer ser vivo nasce: um ser comum, um ser praticamente anônimo diante do mundo.

(Foto: Jéssika Laranjeira)



Ele veio ao mundo no meio da floresta, numa dessas clareiras escondidas na mata que parecem abertas de todos os lados, mas que na verdade estão protegidas por todos os lados.
Naquele lugar havia pouco espaço, apenas o suficiente para ele e a mãe.
Lá estava ele, inseguro sobre as patas finas, o olhar perdido de olhos embaçados que não viam nada, a cabeça caída, tremendo bastante, e ainda muito tonto.
- Mas que bebê lindo! - exclamou a gralha-azul. (Página 5) 
Aos poucos o pequeno cervo vai aprendendo detalhes importantes para sua sobrevivência. Assim como qualquer filhote curioso, Bambi segue os passos da mãe por todo canto e descobre alguns cantinhos da floresta com muita graça. Encontra primos também filhotes, Falena e Gobo, com os quais brinca até cansar pelos campos da floresta. A floresta que é a casa de todos eles, a floresta que, apesar de todos saberem, em algum momento da vida, o quanto é perigosa, vão aprendendo a gostar e a relevar alguns acontecimentos em função da vontade de viver.

(Foto: Jéssika Laranjeira)


Quando Bambi começa a crescer e percebe que sua mãe não fica mais tanto tempo com ele protegendo-o dos perigos, o desnorteamento dele fica mais constante. Certo dia ele até começa a caminhar sozinho pela floresta choramingando atrás da mãe... até que encontra um cervo adulto que lhe repreende, diz a ele que deveria aprender a andar sozinho. Bambi adorava os cervos adultos (os machos, no caso), os animais a sua volta os chamavam de príncipes.

(Foto: Jéssika Laranjeira)


O tempo vai passando e as mudanças vão chegando cada vez mais intensas para o filhote. O grande inverno chega e Bambi tem que aprender a viver sozinho, a ouvir os que ele considera sábio, a caminhar numa via de mão dupla para um cervo como ele: o amor e o instinto. A vida na floresta não é tão simples quanto parecia na infância e Bambi teve que aprender com isso.

Referência ao filme da Disney. (Foto: Jéssika Laranjeira)


Essa é uma obra carregada de sutis (às veze nem tanto assim) críticas ao relacionamento humano com a natureza e entre seus iguais ( forma como o ser humano trata os animais corta ainda mais o coração porque não fica só na ficção) tendo em vista que Bambi é uma clássica fábula, ou seja, as personagens são animais antropomorfizados (atropo = homem/ser humano, morfizados = em forma de), logo muitas ações e características psicológicas tem toda uma relação com problemas, dúvidas e buscas humanas nessa vida.

(Foto: Jéssika Laranjeira)


Um ponto que me chamou muita atenção foi o diálogo entre duas folhas, as únicas que restavam numa árvore quase nua. Era uma clara metáfora sobre a vida e a morte. Achei simplesmente fantástico!

As folhas do grande carvalho àbeira da campina não paravam de cair. Caíram de todas as árvores. Um galho se erguia alto sobre os outros e se esticava longe em direção ao campo. Na extremidade dele, duas folhas estavam sentadas lado a lado.
- Não é mais como antigamente - disse uma das folhas.
- Não mesmo - respondeu a outra. - Esta noite tantas de nós se foram... somos quase as únicas aqui no nosso galho.
- Não se sabe quem será a próxima - disse a primeira. - Quando ainda estava quente e o sol brilhava, às vezes havia uma tempestade ou um aguaceiro e, já naquela época, muitas de nós eram arrancadas, mesmo as muito novas. Não se sabe quem será a próxima. (Páginas 73-74)

Nessa narrativa de vida do Bambi, também senti pontadas em mim. Ainda moro com meus pais e tenho 22 anos, muitas pessoas com mais idade que eu também moram com os pais e sentem que às vezes é difícil deixá-los. Não deixá-los no sentido de abandono, mas no sentido de não mais depender tanto deles. É uma fase complicada. Então refleti muito sobre isso lendo a vida na floresta do Bambi, porque era um pouquinho do meu sentimento, de vez quando, em relação à vida na cidade.

(Foto: Jéssika Laranjeira)

Três curiosidades sobre a obra: a primeira é que o nome "Bambi" remente ao nome "bambino", que significa "criança" em italiano. A segunda é que Felix Salten escreveu uma continuação da história do cervo, mas não fez tanto sucesso quanto a primeira. A terceira é que durante o regime nazista, Bambi foi banido por Hitler por ter sido considerado uma alegoria à forma como os judeus eram tratados, visto, sob a ótica nazista, como uma afronta política e ideológica.

(Foto: Jéssika Laranjeira)


A edição que você vê nas fotos é da extinta editora Cosac Naify, publicada em 2015, traduzida por Christine Röhrig e ilustrada por Nino Cais. Não sei se você sabe, mas todos os livros da editora que restaram para venda estão constantemente em promoção na Amazon, site oficialmente responsável pelas vendas dos livros da editora, inclusive comprei meu exemplar por lá (aliás, "comprei", porque eu escolhi mas foi para o meu irmão me dar de presente, haha). É uma obra realmente bela!

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Muito obrigada a todos que comentam e acompanham o blog, Sei que o trabalho é de formiguinhas, mas tenho grandes esperanças de que muitas pessoas ainda vão conhecer e se apaixonar pela leitura por meio desse blog. Obrigada mesmo! 

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Observação: Sim, eu mesma bati as fotos, foi com o temporizador, hahaha.

5 comentários:

  1. Oi, Jessika
    Adorei essa edição, muito muito muito linda. Dá uma dor no coração ver esses livros da Cosac & Naify, né? Foi uma super perda para nós :(
    Eu realmente não sabia que a história de Bambi era tão diferente do livro, com pontos tão maduros e menos fofos. Achei bem legal! :)

    Beijos,
    Giulia | 1livro1filme.com.br

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    Respostas
    1. É uma edição linda mesmo, Giulia. A Cosac realmente vai fazer falta. E que bom que você acho legal o livro, é bem diferente do filme em alguns pontos mesmo. Volte sempre aqui no blog, viu? Beijinho pra você. ♥

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